EXCLUSIVO  BENEFÍCIOS

 

 

Comunicação apresentada no 1º Congresso IEA Brasil – Associação Brasileira do Eneagrama - São Paulo, julho de 2007

 

SAT – uma Antiga Escola Nova à luz do Eneagrama

O QUE É?

 

Comecemos pelo mais simples: o significado do nome. Este tem três pilares de sustentação, pelo menos. Cada um deles seria suficiente, isoladamente, para sustentar o termo pelo qual a Escola é hoje internacionalmente conhecida. Ainda assim, são complementares.

 

Primeiro, está o significado etimológico, talvez o mais óbvio ou autoexplicativo. As principais línguas ativas no mundo de hoje evoluíram por meio de bifurcações que remontam ao sânscrito como origem comum. O prefixo sânscrito SAT – significando SER – manteve-se validamente intacto em todas elas. Quando acrescido do termo ESCOLA, manifesta um objetivo específico. É uma Escola do SER – ou para o SER –, diferenciada de qualquer outra atividade cujo nome anuncie intenções escolares. É, portanto, um nome único, internacionalmente abrangente, que anuncia um propósito específico. Mesmo outras “Escolas”, similares em gênero, existentes ainda hoje ou que ficaram historicamente conhecidas têm menos especificidade e menor abrangência explícitas em seus nomes. Necessitam, portanto, de mais antecedentes de conhecimentos, ou mais indicações explicativas, para que se saiba de que tratam ou que propósitos estão implícitos em seus nomes. Basta lembrar-se de algumas como exemplo. Quando se fala “Escola de Gurdjieff”, só quem tem conhecimentos antecedentes está apto a assimilar o entendimento imediato do termo, sem outras explicações. O mesmo se dá em relação à “Escola Arica”, criada por Oscar Ichazo. Aliás, nem mesmo nomes mais genéricos, como “Escola do Quarto Caminho”, são suficientes para ser imediatamente entendidos sem que as pessoas já tenham algum tipo de iniciação prévia. Já a expressão “Escola SAT” traz, na própria etimologia, o anúncio de seu propósito.

 

Num segundo aspecto, “SAT” é apenas uma sigla inglesa que faz alusão sintética a um fenômeno histórico de maior complexidade. Alude à práxis esotérica de uma relevante Ordem do Sufismo. São os Buscadores da Verdade. Em inglês, o significado é cristalinamente autoexplicativo: Seekers After Truth.

 

Finalmente, o terceiro pilar apresenta duplo aspecto. Um é de ordem mais acadêmica. Seu entendimento é facilmente compartilhado por quem tenha alguma familiaridade com a evolução da Gestalt-terapia, sobretudo, o que Fritz Perls praticou na costa Oeste americana. É também composto por uma sigla inglesa, muito popularizada em ambientes gestálticos, que menciona as três mais relevantes nuances da atividade terapêutica em Gestalt, que são Space, Awareness e Time – espaço, consciência e tempo. O segundo aspecto remete, ainda que indiretamente, outra vez ao Sufismo, lembrando uma de suas mais conhecidas máximas sobre a natureza de um evento. Diz sintética e expressivamente que um evento só existe verdadeiramente como tal quando pode reunir três elementos numa mesma situação. Esses elementos fundamentais são: lugar (space), pessoas certas (attendants) e tempo correto (time). Fora disso não haveria, segundo a Tradição Sufi, nenhuma possibilidade de ocorrência de um evento, na acepção transcendentemente real e significativa da palavra[1].

 

Portanto, que não se associe à expressão “Escola SAT” nenhuma intenção de nomear uma instituição civil. Como suas congêneres, sua existência inclui-se no grupo das realidades hoje conhecidas como “virtuais”, depois da popularização da internet. A Escola SAT é uma realidade apenas virtual, mas nem por isso menos real. É composta de um corpo de conhecimentos ministrados por um Mestre, por meio de uma hierarquia (princípio sagrado) funcional e invisível do ponto de vista organizacional. Compõe-se de fragmentos de conhecimentos antigos, formando elos de uma linhagem conhecida e legítima que os reúne com coerência em situações (eventos) de ensinamento, pensadas e organizadas para este tempo atual, e direcionadas às pessoas adequadamente sintonizadas com as necessidades requeridas pelo nível de evolução da consciência na presente fase do caminhar da raça humana no planeta. Claudio Naranjo ocupa o topo da pirâmide como elo legítimo da linhagem tradicional. Dele emanam os ensinamentos e os direcionamentos do Trabalho.

 

Para tanto, faz o devido uso das tecnologias disponíveis nesta época, desenvolvendo estilos e criando motivações pertinentes à época sem, entretanto, reduzir-se à divulgação banalizada dos excessos informativos, tão popularizados em certas tentativas de atalho que freqüentemente levam à tentação utilitarista de valorizar o detalhe e/ou a forma, em detrimento do conteúdo.

 

É por isso, aliás, que a Escola se mantém coerente e tranqüila em relação a outra conhecida máxima do Sufismo. Aquela que garante que “o segredo se protege a si mesmo”, ainda quando aparentemente tudo está sendo dito popularizadamente pelos mais variados meios. Nesse sentido, a ingenuidade e a boa-fé de muitos que se iludem não abalam o aproveitamento dos que aprendem, mesmo se estes forem minoria.

 

E assim a humanidade caminha, enquanto a Escola caminha com a humanidade. Certas horas, em grandes marchas. Outras vezes, em círculos restritos. O conteúdo da mensagem não se modifica. Só muda a forma visível de sua apresentação. Avanços e retiradas estratégicas são bem conhecidos nas sucessivas e intermináveis batalhas desta permanente Santa Guerra de libertação dos que vão se despertando, cujo número parece agigantado na presente fase que propicia um salto coletivo da consciência. Esta, além de permanecer muito aquém do salto já atingido pela tecnologia, também ainda não conseguiu imprimir velocidade ao processo coletivo.

 

No Brasil, o Instituto EneaSAT formou-se como braço administrativo centralizador por meio do qual a Escola opera há mais de duas décadas (desde 1984, lançamento da pedra fundamental).

 

ANTECEDENTES REMOTOS

Parece desnecessário localizar no tempo quando os humanos começaram a se perceber como tais e, concomitantemente, a fazer as repetidas perguntas de aparência simples, porém de transcendental importância, que perduram pelos milênios e que estão na base das respostas de sofisticação variada que compõem os tratados de filosofia, os compêndios científicos e o desenvolvimento de disciplinas complexas, tais como a psicologia, a teologia, a sociologia, entre tantas outras.

 

Tais perguntas podem aparecer formuladas em termos de complexidade variada, dando ênfase diferenciada a temas, aspectos e abrangências que mudam segundo a época histórica e a perspectiva específica da disciplina em questão. Entretanto, quando reduzidas à sua expressão mais simples, elas refletem as mesmas perplexidades e as mesmas angústias existenciais que acometem os seres humanos quando se vêem deparados com o poder do Infinito imperscrutável.

 

São perguntas que, no dia-a-dia da vida agitada pelas necessidades da sobrevivência, ou pelo consumismo sonâmbulo, acabam quase sempre tendo que ser jogadas debaixo do tapete da inconsciência da maioria dos indivíduos. Nem por isso elas deixam de ser incômodas e repetitivamente insistentes. A qualquer momento, podem reaparecer em formas tais como: “quem sou eu, afinal?”, “onde estou?”, “de onde venho?”, “aonde vou?” e “como estou indo?”, se é que estou indo a alguma parte, “com que finalidade?”.

 

Os antecedentes mais remotos da Escola remontam aos mais antigos Mestres de antigas sabedorias já sabidas há milênios. As inquietudes persistem. Só as formas da busca e da expressão dos ensinamentos variam conforme a época. A Escola SAT é uma Escola de seu tempo, inserida em seu tempo. E, semelhantemente há outros tempos, aponta para a mesma direção, perseguindo a meta de encontrar o sentido transcendental do milagre da vida e permitir que as pessoas se nutram de Amor, o único verdadeiro antídoto para a angústia existencial e para o perplexidade de viver. Antes, agora e sempre. É dessa maneira que o “logos” manifesta e compartilha a consciência de si mesmo, não “apontando” para o infinito, mas sendo o próprio infinito.

 

ANTECEDENTES ANTIGOS

A caminhada humana no planeta é cheia de curvas, círculos, retrocessos, avanços e redirecionamentos. Há fases em que as circunstâncias se constelam e permitem a observação – geralmente retroativa, para a maioria das pessoas – de nítidos diferenciais que geram seqüência só compreensíveis a posteriori. É um processo que pode ser comparado à colocação de novos elos numa corrente invisível de acontecimentos e transmissão de linhagem, como se tudo houvesse sido programado por uma consciência unificada, mas desconhecida dos atores históricos, até mesmo daqueles que têm certos fragmentos de “um conhecimento desconhecido” restrito aos limites da consciência individualizada e não suficientemente integrados.

 

É nesse sentido que a primeira metade do século XX, vista sobre a perspectiva retroativa de agora, parece ter sido tão fértil para gestar e dar nascimento a novas combinações de fatos, forças e circunstâncias que só mais tarde começariam a amadurecer, embora não tenha chegado ainda o momento final da colheita, e não se possa saber se a safra terá sido generosa ou minguada. O mosaico completo ainda não está pronto, mesmo porque sua natureza dinâmica o apresenta como um constante “vir a ser”.

 

Lembremos alguns acontecimentos, mesmo que só na forma de esboço generalizado, do dinamismo subjacente ao mosaico atual. Gurdjieff é trasladado para o Ocidente e se instala em Paris com seleto grupo de discípulos, fazendo algumas incursões até Nova Iorque que, em seguida, viria a se transformar na capital do mundo globalizado. É a primeira manifestação mais clara de uma mudança no eixo planetário, atingindo a geração e a distribuição de energias sutis que antes estavam quase exclusivamente centradas no Oriente. Outros traslados ocorreriam em seguida, abrangendo importantes centrais energéticas. Entre eles vale considerar-se a expansão das fronteiras do Budismo, sobretudo o Tibetano, depois da opressão e do esvaziamento do Tibet com a adesão da China ao comunismo. Ainda em 1949, Mao Tse Tung completa a Grande Marcha.

 

Aliás, a década de 1940 é cheia de fatos especialmente significativos da “reorganização” mundial que se opera nessa época. Só uns poucos continuam depois do término dela. Talvez só a Guerra da Coréia (1954) e o traslado ostensivo de certas centrais do Sufismo para pontos ocidentais estratégicos precisem ser lembrados aqui. A relevante ordem dos Naqshibandi, por exemplo, embora tenha começado bem antes, só no princípio dos anos 60 formaliza o “Novo Tratado de Tordesilhas” – neste caso, seria mais pertinente dizer “Tratado de Istambul” –, estabelecendo fronteiras, no “novo mundo” ocidental, para delimitar o domínio dos dois príncipes “herdeiros”, os conhecidos irmãos Sayed. Ao Norte, Idries Shah fixaria seu polo de influências a partir das terras americanas, enquanto o outro polo emanaria de Londres, estendendo-se pela América Latina, sob a batuta de Omar Ali Shah, Agha.

 

A hostilidade mútua, a qual ambos aparentavam não se importar que viesse a público, era provavelmente apenas uma estratégia combinada entre eles como parte do “tratado” e tinha a função principal de “despistar” discípulos incautos. Ou talvez fosse apenas uma “técnica” para propiciar o aprendizado, cujo uso é freqüente nesses meios de ensinamento. Ou seja, é comum que dois Mestres de um mesmo nível, geograficamente separados por uma mesma montanha ou rio, desqualifiquem-se mutuamente, cada um fazendo-se passar por portador único da verdade, enquanto seu vizinho não passaria de um simples impostor, contra quem o discípulo chegante deveria se precaver para não ser ludibriado. O objetivo mais óbvio de dita “técnica”, como John Bennett assinalaria, é neutralizar a tendência gulosa e dispersiva do discípulo, dando-lhe a chance de aumentar sua capacidade de se comprometer e de desenvolver sua lealdade com a própria busca, pois que, tendo tido a “sorte” de estar exposto ao ensinamento verdadeiro que “só existe aqui”, poderá concentrar sua parca capacidade de aprendizado e não se perder na ilusão de continuar pulando de galho em galho, confundindo acúmulo de informação com conhecimento real. Aquilo que para alguns poderia soar como “dogmatismo” arrogante, na realidade, seria apenas uma forma compassiva de proteção ao discípulo de pouca capacidade de discernimento.

 

A reviravolta da planetária “mudança de eixo” atingiu também outros setores, aspectos e grupos. É interessante notar que toda a “efervescência subterrânea”, preparatória da mudança, manifestou-se também em efervescências observáveis na superfície, algumas dramaticamente intensas e de abrangência global. Mencionem-se, de imediato, as duas guerras mundiais. A primeira delas resultou na Revolução Russa, com a conseqüente bipartição dos blocos político-econômicos. Cada um deles, em busca de hegemonia, deflagraria a Guerra Fria e a corrida armamentista, que perduraria até que o processo de globalização fosse acelerado, depois da caída do muro de Berlin (1989).

 

Na Segunda Guerra, mais abrangente e mais famosa, Hitler tenta, entre tantas outras estrepolias enlouquecidas, reverter a direção dos acontecimentos históricos. Que será a suástica senão a ostentação simbólica antecipada de uma drástica reversão de rumos? Como símbolo bélico, ela serviria, tanto quanto qualquer outro, para arengar com brilho o brio das tropas; e para disseminar o terror entre os opositores e os humilhados pelas derrotas. Mas é como símbolo de intenções que seu significado parece mais contundente. Anuncia-se uma reversão nos rumos da História, simbolizada por uma drástica e completa reversão de direcionamentos. Se vencessem os nazistas, mudar-se-ia a direção dos ventos, assim como se mudou o símbolo, apresentando-o invertidamente. Por que não venceram, só sobrou espaço para especulações sobre os “para onde” a biruta dos tempos estaria direcionando os “navegantes” de hoje. Além do alívio, naturalmente, entre os que escaparam do holocausto. E esperança para os que têm cultivado sonhos de melhor destino e performance da raça humana na Terra.

 

Simultaneamente, ou logo de imediato às guerras, a “reordenação” das forças foi se completando com rapidez em outros níveis e aspectos. Acelerou-se a corrida pela conquista espacial, em detrimento da atenção dispensada ao planeta. Este poderia (ou deveria?) ser predatoriamente exaurido em proveito de um ou outro bloco, pois já havia sido dividido. Quem viesse a ter hegemonia usufruiria mais. Daí a utilidade, e o aumento progressivo, nos investimentos bélicos e na conquista espacial, que funcionaria também como símbolo de poder e prestígio. A exacerbação do monstruoso complexo industrial/militar/burocrático e tecnológico sustenta-se em premissas semelhantes, ainda que, nem sempre, sua existência apareça aflorada explicitamente. Mas foi o próprio Presidente Eisenhower (1953-1961) quem o denominou publicamente.

 

Na política criou-se a ONU (1948), primeira instituição visível da globalização que se iniciava. No mesmo ano, houve a “invenção” do Estado de Israel, sob a “proteção” incondicional do bloco que viria a ser hegemônico. Também em 1948, deu-se a independência da Índia, talvez a última grande manifestação mundial da força do eixo do Oriente, como coroação do esforço pacifista de Gandhi, imortalizando a não-violência (embora, pessoalmente, tenha tido fim trágico, vitimado pela violência). Mas sua memória perdura entre os povos, e seu exemplo talvez possa reacender esperanças em gerações futuras.

 

A criação do Estado de Israel, em seu aspecto de ponta de lança da hegemonia política do Ocidente, acrescida do esdrúxulo redesenhamento de fronteiras que a diplomacia inglesa imporia aos países do médio oriente (dividindo países e nações, opondo tradições religiosas, culturais, raciais, hostilizando minorias etc.), criou – e tem alimentado crescentemente – o barril de pólvora que, além de enfraquecer o Oriente no pós-guerra, tem soltado perigosos estilhaços em sucessivas partes (Afeganistão, Paquistão, Iraque, Irã, Líbano, Palestina e Síria, para mencionar apenas os mais atuais, ostensivos e potencialmente de conseqüências alastrantes). No “balaio de gatos” fabricado pelos “elegantes galgos” da diplomacia inglesa, os “pitbulls” americanos têm se esforçado para provocar novas unhadas e abocanhar o melhor butim dos estragos, tentando compensar seu “duro trabalho” de gendarmes do mundo, empenhados em “democratizar”, na marra, povos “atrasados” e “rudes” que ainda não se sensibilizaram suficientemente pela admirável “liberdade” do American Way of Life.

 

Simultaneamente, e no meio de toda a agitação do cenário mundial da época, o trabalho sutil subjacente ia se completando. Ao morrer, em 1949, Gurdjieff havia concluído o essencial de sua missão. Inspirados nele, começaram a se espalhar grupos por várias partes e países, multiplicando o lançamento das sementes, mesmo que seus livros só começassem a ser lidos mais recentemente (para não dizer atualmente). Alguns desses grupos têm alcance diferenciado, talvez devido à diferença em graus de legitimidade e/ou alcance dos mandatos recebidos de Gurdjieff. Ou até mesmo, em certos casos, devido à “quebra” da linhagem e/ou à ausência definitiva de legitimação, por carecerem de mandato.

 

ANTECEDENTES RECENTES

Algumas conseqüências de causalidade, mais ou menos evidentes, do burburinho esboçado acima começaram a se manifestar em seguida e vêm se prolongando até os dias atuais. Alguns novos rumos começam a emergir na percepção global do destino da raça. Entre eles, a questão ambiental ganha relevância.

 

Atualmente já não é descabido “vaticinar” a próxima – e rápida – deterioração do Império do Norte, que começa a se enrolar nas próprias armadilhas. Simultaneamente, aparecem países e regiões “emergentes” que ganham destaque em aspectos variados. A América Latina é uma destas regiões, evidentemente.  Do México ao Chile coisas importantes vêm acontecendo e se firmando desde o início da segunda metade do século anterior. No Brasil, não deve ser por acaso, naturalmente, que se concentra a maior força (pelo menos numérica) dos Naqshibandis. As pessoas deste grupo estão entre as mais dóceis/fluidas em perceber e deslizar sobre as conjunturas de épocas. Sabem “viajar na própria terra” (trabalho consigo mesmo), quando é oportuno, e sabem “se refugiar em retiradas estratégicas”. Junte-se a isso pelo menos outros nove itens que “regulamentam” suas andanças e dispersões pelo planeta. Com a recente morte de Agha, eles estão quietos, mas não demorará sair fumaça de seus “vaticanos” descentralizados. “Quem viver verá”, vale repetir-se a frase banalizada. Além disso, que pensar do fato de o sucessor de Agha, seu filho Arif, passar a residir no Chile em vez de em Londres? A resposta óbvia, “foi porque se casou com uma chilena”, contentaria a quantos?

 

Nos anos 60, o “caldeirão cultural” da Califórnia começou a ferver, transformando-se numa espécie de Ocidente orientalizado. Ainda hoje se cozinham lá sopas e caldos dos mais variados sabores. O Eneagrama, juntamente com a Gestalt, tem sido o tempero fundamental mais duradouro e atual. Apesar do “generoso” uso, quase excessivo, que lá se tem feito dele, ainda sobra produção excedente exportada para o resto do mundo.

 

Mas, a bem da verdade, não foi lá onde começou o hoje tão propalado “Enneagram Movement”. Foi aqui mesmo, na América do Sul, pertinho de nós, embora só tenha chegado ao Brasil em 1984, com a primeira visita de Claudio Naranjo a Belo Horizonte (MG). Daí em diante cresceu com rapidez sólida, alargando o núcleo que desenvolveria a Escola SAT no Brasil, a partir dos vinte e nove participantes que estiveram no primeiro encontro de uma semana com Naranjo.

 

Pouco adiante, eu, Alaor Passos, deixaria o Centro Cultural de Pesquisas e Desenvolvimento Humano de Belo Horizonte (criado por mim e Suzana Stroke, anteriormente à vinda de Claudio) para trasladar-me a Brasília. De lá, desde então, passei a centralizar as atividades da Escola, fazendo-a expandir-se pela maior parte do país, associada em nível igualitário a suas congêneres de outros países, em cuja rede ampla se aninha, há anos, uma “tribo internacional de amigos” sobre a qual Claudio Naranjo exerce seus conhecidos dotes neoxamânicos, ocupando a posição de “Pajé Principal”, legitimado e apoiado pela força mundana de muitos “caciques regionais”.

 

Desde o princípio, atuando lado a lado com o fundador da Escola, e em representação dele, mantive-me à frente da mesma no Brasil, hoje já em plena fase de maturidade. Com a autorização e obviamente a bênção de Naranjo, encarreguei-me do amplo leque de atividades que continua ainda em expansão. Sem abandonar a vertente psico-espiritual que reúne buscadores e terapeutas, a Escola expande agora o aspecto educacional, em apoio à formação de educadores, via SAT educacional. O objetivo de Naranjo é inocular no Sistema Educacional o agente transformador da humanização – integral e harmônica – do educador, para que possa atuar como agente de mudança em seu meio, devolvendo assim à educação sua função de formadora de seres conscientes e autônomos, cujo crescimento possa atingir os mais altos níveis do potencial humano dos educandos. É como se, após dois mil e quinhentos anos de hibernação, Sócrates ressuscitasse imune aos efeitos da cicuta, imposta pelos poderosos da Antiga Grécia.

 

Quando Oscar Ichazo estabeleceu-se no Chile, no final da década de 1960, apresentou-se como um “indivíduo semente”, dizendo-se “enviado da mesma Escola” que antes enviara Gurdjieff ao Ocidente. Diferentemente de Gurdjieff, entretanto, Ichazo dizia-se nada menos que um Qutub e, como tal, atuaria como “vetor” da energia criada e consumida na Escola.

 

A semente que então plantou em Arica foi bem cultivada, e parece que Ichazo conseguiu “vetorizar” a colheita para muitas outras partes. Não escondo o orgulho de também ser partícipe de tal colheita, mesmo que só das safras surgidas de novas semeaduras sucessivas que se cultivam em outras partes e contextos, mesmo sabendo-se que Ichazo abandonou o caráter “artesanal” do cultivo inicial de Arica a fim de se dedicar ao estilo das “plantations”, orientadas ao consumo das grandes massas e adubadas na inspiração de uma “Metacultura Internacional”, bem semelhante a uma “Corporation” moderna, com a qual jamais tive qualquer ligação pessoal. Nem o interesse específico chegou a ser despertado.

 

Após prolongadas andanças com Ichazo, o bastão foi passado a Naranjo que criou o Instituto SAT na Califórnia, no princípio dos anos 70, onde ministrou seus ensinamentos, durante alguns anos, a um primeiro grupo de cerca de oitenta pessoas. Depois ressurgiu simultaneamente na Europa e na América Latina (primeiro no Brasil), na década de 1980. Daí em diante, a Escola SAT foi evoluindo em seus contornos e não parou de se expandir.

 

Naranjo diz que recebeu de Ichazo muito mais que o conhecimento específico do Eneagrama, o qual, diga-se de passagem, foi pouco mais que esboçado por Ichazo em Arica. Coube a Naranjo sistematizá-lo e desenvolvê-lo até alcançar a forma descritiva e didática como passou a ser divulgado no mundo. Aparentemente muito mais por acaso do que por intenção deliberada. É sabido que entre Ichazo e os que estiveram em Arica (entre eles, Naranjo) havia um pacto de “secretividade” quanto à divulgação dos conhecimentos específicos do Eneagrama. Tal pacto foi exigido também àqueles que freqüentaram o primeiro grupo do Instituto SAT.

 

Entretanto, já na terceira geração, o pacto se quebrou, devido ao fato de que alguns religiosos do primeiro grupo se encantaram com os ensinamentos – aliás, como continua acontecendo hoje, por todas as partes – e decidiram ensiná-los a seus irmãos das comunidades religiosas. Nunca se soube ao certo a razão da quebra da “secretividade” que obrigaria que os conhecimentos do Eneagrama só fossem passados com discrição em contextos apropriados.

 

O fato é que, seja por ingenuidade, “interesseirismo”, falta de escrúpulos, seja mesmo simplesmente por não terem participado de nenhum “pacto”, como fora exigido dos da primeira e segunda geração, a divulgação massiva começou pelos da terceira geração em diante. Dizem alguns que a “secretividade” dos ensinamentos acabou, mas o segredo segue protegendo-se a si mesmo, como no jargão dos Sufis. Por mais massificada e exposta que esteja a divulgação, só tem acesso verdadeiro ao segredo aqueles que estiverem “prontos” e se acercarem “corretamente” dos ensinamentos.

 

Seja como for, no princípio dos anos 80 começaram a surgir publicações sobre o “novedoso” assunto. Alguns religiosos ligados às comunidades jesuítas se autorizaram a publicar os primeiros livros de uma série variada que viria em seguida e que nunca mais parou de aumentar. Embora tais autores não tivessem sido alunos diretos de Naranjo, todos eles o reconheceram como predecessor. Mas Naranjo permaneceu fiel ao “pacto” e só fez a primeira publicação sobre o Eneagrama nos anos 90. Seu livro Ennea-type Structures, seguido de vários outros, era obviamente mais completo e academicamente mais complexo que os surgidos até então, pois, afinal, Naranjo era a fonte originária de todos. Mas sua entrada na onda das publicações só se deu depois que o tal pacto perdera o sentido, apesar de Ichazo ter recorrido aos tribunais para incriminar alguns dos primeiros “transgressores”. Entre os acusados estavam pioneiros como Helen Palmer e Don Riso, além de outros. Daí em diante, a onda das publicações só fez crescer, até chegar a um sem número atual, cobrindo aspectos os mais variados. Alguns são admiráveis em criatividade e outros chegam a inovar com base em pesquisas específicas. Mas nem todos atingem o desejável nível de confiabilidade teórica/informativa. Outros não ultrapassam a superficialidade mais primária das popularizações massificadoras.

 

Passou logo a ser visível no Eneagrama o mesmo divisor de águas já conhecido em outros campos. De um lado, o conhecimento hermético e fundamentado que se legitima a si mesmo em coerência seqüencial da linhagem de que emana. De outro lado, variadas versões transitórias, com propósitos e alcances diferenciados, em regra, associadas a algum tipo de “mestre da curiosidade” com sensibilidade suficiente para perceber as inquietudes insatisfeitas das grandes massas contemporâneas e provê-las de alimentos exotéricos travestidos de pragmatismos. Haja vista, como exemplo cristalino, a questão da Astrologia. De um lado, seu incontestável aspecto esotérico/científico desde os tempos faraônicos (ou até anteriores). Do outro, as avalanches exotéricas de horóscopos diários e receituários práticos que inundam o cotidiano de multidões com infinitas publicações de variadas naturezas.

 

Entre os pioneiros das publicações, tanto Don Riso, como Helen Palmer são para mim admiravelmente respeitáveis em suas contribuições para difundir os conhecimentos do Eneagrama nos dias atuais. E assim como vejo Claudio Naranjo enobrecer-se ao reconhecer explícita e completamente sua gratidão a Oscar Ichazo por ter sido “a parteira” que o trouxe à luz neste mundo de delicatessens esotéricas, assim também vejo como gesto enobrecido de ambos (Riso e Palmer) não tentarem esconder que, embora não sendo discípulos diretos de Claudio, foi dele que aprenderam, mesmo que em terceira ou quarta geração. Eventuais imprecisões teóricas/informativas, veiculadas em seus livros e/ou de seus seguidores, podem ser relevadas quando se compensam pela “iniciativa criativa” e pelo papel de arautos modernos de uma “notícia relevante”, ainda que tão antiga. Penso que Oscar Ichazo, ao permitir-se “processá-los” como “plagiadores”, teria em mente o objetivo principal de lhes dar uma oportunidade de aprendizado, que obviamente continha a humildade e a sobriedade como elementos relevantes do cardápio.

 

Mestres da categoria de Oscar Ichazo e Claudio Naranjo, via de regra, apenas se limitam a cumprir sua tarefa de ensinar. Caso outros tenham ou não usufruído do aprendizado, é questão reduzida apenas a eles. Quem ensina sabe o que ensina. Por isso, somente ensina. Aprender adequadamente é tarefa de outros, não deles! Digo isso assim porque a lição de ser “menos deselegante” faz parte da etapa atual de meus estudos/aprendizados. Por isso, restrinjo-me ao já dito, semiciente de algumas ultrapassagens em curvas desafiadoras. Perdoem-me os que, porventura, não tenham podido compreender o sentido das setas que estive tentando sinalizar! Já aprendi que nem sempre os sinais emitidos por meu carro são compreendidos em tempo real para evitar a colisão dos que vêm atrás. Sei, de certeza certa, que nem Gurdjieff, nem Ichazo, nem Naranjo dedicaram suas vidas a ensinar coisas fascinantes, embora o fascínio esteja implícito em seus ensinamentos. O ensinamento de todos eles aponta para o milagroso, tentando ajuntar adequadamente, em sucessivos momentos, os fragmentos de um “conhecimento desconhecido”. Há, naturalmente, o risco de que os que venham a estar expostos aos ensinamentos apenas fiquem no nível do fascínio e consigam, fascinantemente, motivar outros fascínios. O utilitarismo pragmático é outro risco. Mas sou de opinião que o pragmatismo é também uma arte e não necessariamente uma praga. Como arte pode ser admirável, além de útil.

 

O uso que Naranjo faz do Eneagrama, além de científico, tem um propósito transcendental: provocar a transformação, individual e coletiva, contribuindo para o crescimento do potencial humano e para a elevação do nível da consciência dos seres conscientes. Nem tudo que se produz no contexto da Escola SAT circula publicado. Excetuando-se os livros de Naranjo (ao todo já são mais de vinte, embora não necessariamente diretamente referidos ou restritos ao tema do Eneagrama, pois a versatilidade é um de seus pontos mais altos), que são sempre abrangentes e bem fundamentados, pouca coisa já se publicou. Há muito material ainda não suficientemente revisado ou ainda em fase de coleta para complementação. Só em relação ao tema dos subtipos há nove volumes em preparação. As orientações vêm de Claudio, mas a elaboração escrita será compartilhada por muitos. Por enquanto, o volume dos dados arquivados, de pesquisas ou das experiências vividas no contexto dos eventos, supera muito o que já está disponível ao público não pertencente à “tribo internacional de amigos”. A seu tempo, novas publicações virão, pois o leque de interesses é amplo. E certamente trabalhoso e fértil.

 

A PROPOSTA DA ESCOLA

Mudar o mundo mudando-se a si mesmo e reconstruindo seu entorno. Esta é a síntese abrangente dos propósitos da Escola SAT no conjunto de eventos que oferece. Elevar o nível (individual e coletivo) da consciência para alcançar a transformação, por meio do conhecimento e do Trabalho psico-espiritual consigo mesmo. Uma oportunidade de se dedicar à reeducação permanente e desenvolver a capacidade de aprender a aprender.

 

Estando presente esse conjunto de intenções, torna-se praticamente impossível experienciar “impunemente” os eventos da Escola. Não só o participante vive experiências transformadoras, como também, paulatinamente, vai se tornando um agente de transformação e mudanças.

 

A Escola trabalha com práticas realistas, sem atalhos ilusórios. Parte do que é, acolhendo cada um com suas próprias circunstâncias de vida, seja qual for sua natureza e o nível de consciência. Alternam-se dolorosas descidas ao inferno com estimulantes subidas aos círculos superiores do Paraíso. Entre os participantes, isso pode ocorrer simultaneamente, quando os estímulos de qualquer evento afetam diferenciadamente cada pessoa, dependendo do momento interno de cada uma e do estágio de sua trajetória. Depende também do nível de desenvolvimento pessoal já atingido e da natureza da problemática que decida confrontar no momento.

 

A longo prazo, a trajetória do trabalho assemelha-se a uma espiral. Às vezes, dá a impressão de se voltar ao mesmo ponto, embora este seja sempre visto a partir de uma nova perspectiva e com crescente grau de afastamento. Há avanços quando a identificação dá lugar ao desapego e quando as defesas neuróticas, que produzem evasivas, conformismo, disfarce e esconderijos, dão lugar à coragem da autoexposição, da transparência e da entrega confiante.

 

Trata-se de criar situações para que o indivíduo conte a si mesmo a própria história, repetidamente e com método e amparo compassivo, sem julgamentos nem condenações, ampliando o nível da consciência de si mesmo. Situações nas quais o participante possa se permitir ser o que é e logre se alimentar da energia amorosa sutil que permeia o contexto dos trabalhos, canalizada pelo Mestre sempre presente, inclusive quando não fisicamente, fazendo-se substituir por outros capazes de cumprir a mesma função em sintonia direta com ele.

 

Que não se pense que a caminhada seja desprovida de sofrimentos. Porém, parafraseando Gurdjieff, privilegia-se o “sofrimento consciente”, que leva ao crescimento, e descarta-se o sofrimento inútil de cunho emocionalista e apegado ao drama. A consciência de se estar vivendo “cheio de nada” costuma abrir as portas para um vazio fértil que necessariamente produzirá aprendizados, levando a pontos de não-retorno, mesmo quando aparentemente nada tenha mudado na rotina diária vista de fora. Internamente, as mudanças vão sendo assimiladas e, eventualmente, produzem saltos no caminho.

 

Nas palavras do próprio Naranjo, o que ele ensina, por meio da Escola, é “meditação num contexto dionisíaco”. Pode soar simples para quem só ouve ou lê. Entretanto, quem se dispõe a entrar no Caminho e viver a experiência sabe, de certeza certa, que isso engendra uma complexidade quase ilimitada. Se para Guimarães Rosa “viver é perigoso”, podemos acrescentar que “crescer é mais perigoso ainda”, pois, mais cedo ou mais tarde, se chegará a um ponto sem volta e isso poderá não ser tão cômodo de se admitir imediatamente. Como observou Carlos Castaneda: “depois de chegar a Ixtlan, nunca mais se voltará a Los Angeles”.

 

COMO SE TRANSMITEM OS ENSINAMENTOS

A prática sustentada da meditação é a viga principal. Mas a chegada a ela é incentivada, e às vezes acelerada, por vários métodos. Em cada evento são criadas situações que facilitam o aprendizado de aprender. Assim como “aprende-se a andar andando”, também “aprende-se a meditar meditando”. Ou, em outras palavras, “aprende-se a aprender aprendendo”.

 

A estrutura atual dos ensinamentos é composta de eventos complementares e diferentes. De fato, são eventos mais complementares que seqüenciais. No nível da iniciação, tanto a temática de estudos, como o oferecimento de oportunidades vivenciais são mais simples. A complexidade e a intensidade aumentam e são diferentes nas fases adiantadas.

 

A estrutura dos eventos permite uma continuidade ilimitada para aqueles que queiram seguir o caminho indefinidamente no tempo e usufruir da sutil energia que emana do Mestre e permeia os trabalhos. Alguns acontecem fora do contexto dos eventos, em que se indicam e se incentivam práticas e encontros de manutenção para os períodos entre os módulos.

 

Entretanto, considera-se que há um mínimo requerido de participação num certo número de módulos: sete no total. Eventualmente pode haver variação, tanto no número, como na natureza dos módulos propostos. Em regra, a indicação completa em termos de eventos compõe-se do seguinte:

 

1) Iniciação na Psicologia dos Eneatipos. Introdução ao Eneagrama com vivências destinadas ao autodiagnóstico, contando com a ajuda do instrutor. Estudo preliminar da autobiografia individual. Daí em diante, todos os módulos são organizados e realizados à luz do Eneagrama.

 

2) SAT da Restauração de Relacionamentos, com ênfase na história de vida, desde a infância, e limpeza amorosa das pendências do condicionamento infantil via figuras parentais. Relacionamentos da vida adulta. Tudo sempre à luz do Eneagrama, conduzindo ao aprofundamento da compreensão pessoal, com ênfase nas Virtudes e no diagnóstico dos Subtipos, localizando-se a neurose principal. Contém grande impulso ao aprendizado da convivência amorosa, estreitando os relacionamentos do grupo e ampliando a disponibilidade de convivência no mundo.

 

3) SAT da Expressão, incluindo Teatro Gestáltico, ou Teatro Terapêutico, Gestalt-terapia, Movimento Espontâneo e muita meditação, de variados matizes, além do aprofundamento em temas afins com a teoria geral do Eneagrama.

 

4) SAT da Supervisão: mais meditação, parada e em movimento, com ou sem música. Aprofundamento da compreensão teórica, Movimento Autêntico, Terapias Mútuas, Gestalt-terapia e experiência de Renascimento, preferencialmente realizada na água. Contato com o Vazio Fértil.

 

5) SAT Especial: organizado segundo necessidades concretas dos participantes ou das circunstâncias locais específicas.

 

6) SAT do Reencontro: estar junto, estar com o Mestre, meditar e estar aberto a “lo que venga”, inclusive experienciar trabalhos que se proponham sobre a marcha dos acontecimentos. Vivências de Gestalt sem Fronteiras, inspiradas em temas afins ao Eneagrama.

 

7) Retiro de Meditação, em grupo, porém, em ambientes isolados individualmente e com assistência pessoal. Silêncio, externo e interno. Parar o mundo, não fazendo nada. Estar presente na Presença do Grande Vazio Fértil.

 

Os itens mencionados são apenas um esboço da estrutura mais costumeira. O item “1” é indispensável. Sem ele não se pode entrar em nenhum outro evento. Já os itens 2, 3 e 4 podem ser intercambiáveis na seqüência. Mas sem eles não se pode participar em nenhum dos três seguintes. A seqüência destes (5, 6 e 7) é também intercambiável. Algumas variações ou certas circunstâncias específicas podem exigir mais complexidade (ou incluir mais elementos) do que os esboçados acima. Inclusive, incluir novos temas e vivências.

 

O instrumento básico é sempre o Eneagrama, em algum de seus aspectos. O fio condutor que orienta a meta é o “lembrar-se de si mesmo” em diferentes acepções do termo. Está sempre presente o estímulo ao desenvolvimento da atenção intra e interpessoal. Idem com relação à auto-observação e aos estímulos para aprender a escutar o silêncio, inclusive por meio da música, chegando ao apaziguamento da mente e sua respectiva estabilização, até que se alcance o estado meditativo permanente.

 

Na abertura dos eventos SAT é comum que Naranjo incentive os participantes com perguntas do tipo: “Que milagre você intenciona que aconteça contigo aqui?”. E o milagre sempre acontece. Continua acontecendo. Cada vez mais milagroso, no sentido de mais perfeito, completo e real, embora, evidentemente, desprovido de qualquer “espetacularismo eufórico” ou “lunatismo esotérico”. Alguns participantes, inicialmente, não respondem à pergunta, por pejo ou desconfiança compreensível ante o desconhecido. Todavia, no final, é costumeiramente unânime o reconhecimento agradecido de que a busca do milagroso foi fartamente contemplada. Para alguns isso significa que a consciência foi despertada. Para outros houve expansão da mesma. E outros ainda chegam ao ponto de tomar consciência da própria consciência.

 

Ninguém passa impunemente pela experiência de um evento da Escola. O concerto de estímulos que cada participante recebe faz com que, no final do evento, o resultado que leva consigo seja sempre maior que a soma das partes dos estímulos experienciados. Esta é uma das marcas características dos eventos SAT. Claudio sempre se acompanha de uma equipe interdisciplinar de colaboradores, afinada e atenta a seus comandos, enquanto ele se encarrega de lançar as sutis flechas certeiras que são uma das características de sua maestria. Cada qual recebe sua dose na medida certa.

 

Uma sagrada proteção invisível permeia o ambiente dos ensinamentos. Uma sutil e poderosa energia de amor contamina os grupos de trabalho, dando a cada indivíduo seu quinhão necessário para empreender as travessias pessoais que se façam necessárias em qualquer etapa de sua trajetória. E quando a travessia se completa libera-se igual energia que se somará ao avanço do grupo. Há, assim, um vice-versa permanente de energia distribuída e de energia gerada, ambas passando em correntes alternadas e contínuas por meio de quem esteja ocupando o topo da pirâmide num momento específico, em sintonia natural e coesa com Naranjo. A evolução dos eventos assemelha-se a uma experiência de alquimia psico-espiritual. A energia contagiante emana de uma egrégora e volta a ela ao permear todos os níveis da pirâmide humana.

 

Na linha do que se acaba de descrever acontecem muitas das experiências frequentemente narradas como “encontro com o milagroso” ou “contato com o divino”. O amor é divino, naturalmente, e manifesta-se em tríplice aspecto, como Naranjo tem ensinado em suas palestras e livros. E parece legítimo admitir que a própria expansão do espaço interno da alma, do coração e das células sensoriais seja, em si mesma, um verdadeiro milagre. Afinal de contas é preciso reconhecer que o maior dos milagres é a existência do Espaço no Tempo. Quando o corpo se movimenta no espaço, já é um milagre, pois o corpo, cheio de espaços, está mudando posições do Espaço. Em outras palavras, o Espaço opera o milagre de mover-se a si mesmo.

 

Que dizer então quando o espaço interno da consciência, que é tão virtual quanto o Espaço infinito e atemporal, expande-se, abrindo as portas do próprio infinito? Experiências como essas não são banais. É preciso estar adequadamente sintonizado para que se possa compreender que o Espaço, além de virtual, é a única existência real perceptível. Tudo o mais são coisas transitórias. Assim como transitória, por exemplo, é a chuva que cai através do Espaço que não se molha. A transitoriedade de todas as coisas, de todas as cristalizações do Espaço, inclusive de nosso corpo físico, é bem conhecida pelos místicos. Como no belo poema de San Juan de la Cruz: “entréme donde no supe y quedéme no sabiendo, toda ciencia transcendiendo…”. Os que não somos poetas devemos contentar-nos com expressões mais simples quando pretendemos qualificar o estarrecedor: “O Espaço é infinito, imutável, indefinível, onipresente etc.”. Óbvio que também tem que ser onisciente! É isso que acontece quando o espaço interno se expande e se funde no Grande Espaço que contém, e vai além, de todas as galáxias. E de qualquer possibilidade de imaginação. É aqui onde não existe mais mapa, nem mesmo o Eneagrama e a própria Escola.

 

A Escola SAT aponta com convicção para tal possibilidade e afirma dispor dos ingredientes necessários à viagem inevitável de todos nós, como indivíduos e como espécie. Fará sentido dizer que o destino é o lugar onde tudo vira nada, e o nada vira tudo? Se essa pergunta for formulada como afirmação, então, a conclusão não pode ser outra, senão esta: para nós, da Escola, o Eneagrama é um mapa cuja maior utilidade é possibilitar a saída do mapa. De todos os mapas, pois eles são necessários e compreensíveis somente para quem ainda está na prisão, mesmo já estando desperto e consciente de sua condição de prisioneiro. A Liberdade não cabe em mapas. Nem no “uni” nem no “ene” e, muito menos, no “énea” mapa, mesmo que este fosse desenhado na grama.

 

 


[1] Em seu livro mais recente Sanar la Civilización, Ediciones La Llave, 2009, Naranjo menciona mais um significado sutil, como homenagem de gratidão a seu mestre na juventude: Tótila Albert Schneider, cujas letras iniciais do nome, tomadas de trás para frente, também compõem a palavra SAT (nota a posteriori).

 


 

           

Acesso Membros [Lembrar senha]

E-mail
Senha

Notícias

Testemunhos do IV Congresso

Testemunhos do IV Congresso

Enquete

Como você avalia o IV Congresso Brasileiro de Eneagrama?
 
 Ótimo, parabéns!
 Interessante!
 Normal, nada de especial!
 Regular, espero que melhore!
 Não gostei.
 

Eneagrama do Brasil

eneagrama brasil

Eneagrama no mundo

eneagrama mundo

Informativo

Cadastre seu email para receber informações

Nome
Email

Patrocinio Gold

Nacional Gás Hap Vida Banco do Nordeste Governo Federal

Patrocinio Bronze

Apoio

Vitória

2010 © IEA Internation Enneagram Association - Brasil

Desenvolvido por Vox Digital